Corrida de Montanha – Etapa Paranapiacaba 2007
Finalmente havia chegado o dia 24 de novembro, dia da 5ª e última etapa das Corridas de Montanha 2007, que, pelo menos por mim, tinha sido aguardado com bastante ansiedade. Afinal de contas, desde o dia 26 de agosto, quando corremos em Ilha Bela no X Terra Trail Run, três meses já haviam se passado e a expectativa por mais uma Corrida de Montanha era muito grande.
Esta etapa tem um atrativo especial, pois além da cidade ser um charme, o circuito possui características de desafio que o diferenciam de outras etapas. Refiro-me em especial ao paredão de pedra onde os competidores precisam empreender uma verdadeira escalada em rocha molhada e escorregadia; ao trecho onde precisam entrar num rio e percorrer através dele driblando as traiçoeiras pedras ocultas sob sua superfície turva; e a barrenta voçoroca com declives alucinantes e aclives agonizantes.
Tudo isto se somava ao fato de também ser o dia onde seriam conhecidos, não somente os vencedores desta etapa, mas também de todo o Circuito Brasileiro de Corridas de Montanha em 2007. Um dia pra lá de especial para quem curte este esporte!
Minutos antes da largada, programada para as 17 horas, o clima peculiar da região já se fazia sentir com uma neblina que se adensava mais e mais a cada minuto. Para um corredor de montanha como eu, que curte este esporte devido aos seus desafios imprevisíveis, aquela neblina era como um presente da mãe natureza que caprichosamente embalava a prova num embrulho de mistério que me empolgava.
No entanto, embora ainda não soubéssemos, aquela neblina chegava como um presságio sinistro de que alguma coisa muito estranha estava prestes a acontecer.
Foi dada a largada e lá fomos todos nós felizes e empolgados rumo a mais uma aventura onde o inesperado nos aguardava depois de cada curva.
Pois é, não se passaram nem 5 minutos de prova e não é que o inesperado já estava por lá nos esperando de uma forma tão surpreendente que todos literalmente pararam de correr. Lá estava um grupo de corredores de olhos arregalados, respiração ofegante e com uma expressão de espanto no rosto que contagiava a todos que de lá se aproximavam.
Mas o que afinal de contas havia acontecido? O chão havia se aberto e tragado os primeiros corredores? Um disco voador estava pousando? Apareceu um chupa-cabra na trilha?
Nada disso! Era “somente” a trilha que havia acabado!
Mas como assim, “acabou a trilha”? Simples! Os corredores que estavam liderando erraram o caminho e todos os demais que vinham atrás foram com eles.
A pergunta que qualquer um fará na seqüência é: Mas por que eles erraram o caminho? Bem, a isto já não posso responder com precisão, mas pelo que ouvi falar, alguém deve ter arrancado a fita que direcionava os corredores para o sentido correto e, como não havia nenhum fiscal de prova dando orientação neste local, todos acabaram indo rumo a um beco sem saída.
Na confusão que se generalizou, alguns gritavam para ninguém mais correr e se dirigir à largada onde seria tudo resolvido, provavelmente com uma re-largada. Outros, que lá de baixo viram a muvuca e os corredores descendo, já sacaram o que tinha acontecido e se colocaram a correr em outro sentido. Quando o primeiro grupo viu que uma parte já tinha disparado na frente, tocaram também a correr atrás em busca de recuperar as posições perdidas. Em pouco tempo tudo já estava normalizado, porém com irreparáveis prejuízos para alguns atletas que até então lideravam a prova.
Assim que entramos na trilha, senti a dificuldade de avançar no ritmo a que estava condicionado a correr, devido a enorme fila de corredores a minha frente. Normalmente isto já é uma coisa esperada numa corrida de montanha, pois em uma trilha tipo “single trail” é muito difícil realizar uma ultrapassagem, que precisa ser negociada estrategicamente com o atleta que vai a sua frente. Porém, negociar uma ou duas ultrapassagens é uma coisa; tentar ultrapassar cerca de 30 competidores que seguem em fila indiana é algo bem diferente.
É diferente porque o corredor que vai a sua frente não está te atrasando por ser necessariamente mais lento que você, e sim porque ele também está sendo atrasado pelo o outro que está adiante dele. E assim sucessivamente até o primeiro da fila lá na frente. Bem, eticamente falando, que direito tenho eu de ultrapassar um corredor que está sendo impedido por outro? Na minha maneira de ver é um grande desrespeito uma ultrapassagem nestas condições. Comparo isto a aquele cara espertinho que só pensa em si e quando vê uma fila de carros onde cada um aguarda pacientemente sua vez de virar a esquerda, ele avança na paralela e de maneira egoísta corta a frente do primeiro lá na frente.
Nestas condições o melhor que se tem a fazer é esperar pacientemente na trilha até que todos tenham ultrapassado o atleta lá na frente que está segurando todos os demais. A coisa fica um pouco mais complicada quando não se trata de apenas um atleta a segurar os demais, e sim de um grupo lento de cinco ou seis que seguem no mesmo ritmo e acabam amarrando outros vinte.
Não encaro estas limitações como algo que me desestimule, mas sim como particularidades que tornam a corrida de montanha uma corrida bem estratégica e interessante, assim como aqueles circuitos de fórmula 1, tipo circuito de Monza, onde os pontos de ultrapassagem são limitadíssimos.
Talvez uma das maneiras de minimizar estes engarrafamentos seja permitir que os atletas desenvolvam os primeiros dois ou três quilômetros por vias com uma melhor fluidez e sem pontos de gargalo, onde haverá um distanciamento natural dos grupos que avançam em diferentes ritmos. Mas não adianta pensar que isto vai acabar com as filas, pois isto é impossível numa corrida de montanha, e quem dela participa precisa estar preparado para enfrentar isto.
O restante da corrida foi pura diversão, se bem que eu prefira percorrer aquela voçoroca no sentido contrário (descendo). É mais perigoso, porém muito mais emocionante.
Em razão dos problemas logo após a largada, a direção da prova demonstrou muita prudência, sabedoria e coragem em cancelar a festa da premiação a fim de estudar todo o ocorrido com mais calma de forma a não cometer injustiças e nem prejudicar ninguém.
Parabéns a todos vocês que tiveram peito para tomar esta decisão. Sei que não foi fácil. A pressão foi grande e as reclamações foram inúmeras, porém com isto vocês ganharam mais alguns pontos no meu conceito, demonstrando num país onde infelizmente para tudo se dá um “jeitinho” de solução que mais tem haver com a conveniência de alguns poucos do que com a correção das ações, que vocês jamais sacrificarão a seriedade com que realizam estes eventos em troca de atitudes populistas e “jeitinhos” inescrupulosos.
Quero terminar com uma frase:
“Só tem direito de errar aqueles que estão fazendo algo, pois quanto aos demais que nada fazem e que por isto nunca erram, o único direito que lhes cabe é de se envergonhar pela covardia da omissão”.
Cleiton Heredia