NISSAN X TERRA BRASIL TRAIL RUN
Caramba!
Realmente este nome “gringo” todo “sofisticate” impressiona!
Quando falava para os meus amigos que estava indo para Ilha Bela correr o NISSAN X TERRA BRASIL TRAIL RUN, podia notar em seus semblantes aquele misto de espanto com interrogação: “Noooosaaa! Que raios deve ser isto? O cara deve ser bão mesmo!” (para complicar ainda mais e causar um impacto ainda mais estonteante, basta substituir a pronúncia da letra “X” pela pronúncia inglesa “écsis”).
Mas que nada! Foi uma prova de montanha como qualquer outra. É claro que toda aquela infra proporcionada por parcerias de peso como: Nissan, Speedo, Exceed, America Airlines, Revista Go Outside, Fila, Gatorade, Piraquê, e por aí vai, proporcionaram ao mega-evento uma aparência que impressionava qualquer um. E foi aí que eu mais uma vez tirei o meu chapéu para o Fábio, organizador do Circuito Brasileiro de Corridas de Montanha, pois ele consegue realizar seus eventos com recursos muito mais escassos, mas que pouco deixam a desejar em relação a aquele em que rolaram rios de dinheiro provenientes de parcerias poderosíssimas (fazer bons eventos com grana sobrando qualquer um consegue; o cara mostra que realmente é bom quando consegue tirar leite de pedra).
Não foi um evento exclusivo de corrida de montanha, pois várias outras modalidades foram disputadas nos dois dias de competições: Triatlon, Mountain Bike, Natação, Downhill, além da corrida. As várias tribos que representavam cada uma das modalidades deram ao evento uma diversificação interessante, porém um pouco decepcionante no momento da corrida. Este detalhe explicarei um pouco mais adiante.
Muito embora tenha saído bem cedo de São Paulo com meu filho Filipe, que disputa na categoria juvenil, só conseguimos chegar na Praia do Perequê faltando uns 50 minutos para o início da corrida. Achávamos que este tempo seria mais que suficiente para pegarmos nossos kits, fazer um aquecimento e ir para a largada, mas uma informação errada de dois atletas tumultuaram nossa vida. Perguntamos onde pegava o kit e eles, com a maior certeza do mundo, nos orientaram a ir até o “centrinho”, distante 4 km do local onde estávamos, para pega-los. Voltamos correndo ao estacionamento, pegamos o carro e lá fomos nós no meio de um trânsito devagar quase parando, até o local informado. Chegando lá, um rapaz do staff disse que não era ali, mas no próprio local da prova. Voltamos voando e finalmente conseguimos, em cima da hora, pegar nosso kit e se dirigir para a largada.
O percurso da corrida lembra um pouco a prova de São Sebastião com aquelas subidas bem pesadas e descidas super íngremes. A diferença foi o calor excessivo (35 graus) agravado por uma mata muito abafada, devido à largada ter sido na hora mais quente do dia (meio dia). A coisa ficou ainda mais complicada por causa da falta de água durante o percurso, o que é um crime devido ao calor que fazia naquela hora do dia. É aí que nós corredores ficamos meio chateados! O que adianta toda aquela sofisticação com arenas hiper bem montadas, com TV plasma, tapete vermelho, cartazes coloridos, uma multidão de pessoas no staff, se naquilo que é mais básico e importante ao corredor eles falham? Nós corredores não vamos a estes eventos para ficar desfilando naquelas bonitas passarelas próximo a largada. Nós vamos para correr no meio do mato num calor infernal! Por isto a prioridade para nós é água nos pontos estratégicos da prova. Não estou reclamando por facilidades ou luxo, pois entendo que uma corrida de montanha é marcada pelo desafio da superação de inúmeros e exaustivos obstáculos. Estou falando de algo que tem haver com integridade física do corredor para quem a água é um artigo vital. É preferível correr uma prova completamente sem água onde os organizadores avisam previamente que não vai haver, devendo cada um transportar a sua, do que ir para uma prova pensando que será devidamente suprido e na hora que mais precisamos só encontramos pessoas do staff de mãos vazias nada mais podendo fazer do que limitar-se a assistir nosso sofrimento.
Uma outra coisa que gostaria de comentar sobre esta prova é sobre a experiência que tive em correr junto com competidores que não entendem nada de corridas de montanha, mas que estão ali simplesmente por causa do status que acham que correr uma prova badalada como esta lhes dará. Um verdadeiro corredor de montanha é movido por algo transcende a rivalidade competitiva. Ele está ali para, antes de qualquer coisa, curtir a natureza e superar a si mesmo. Não sei quanto aos competidores de elite que disputam os primeiros lugares, mas entre nós corredores do povão, quando um corredor mais veloz te alcança e começa a fungar no seu cangote, faz parte do companheirismo entre os competidores facilitar a ultrapassagem.
Durante a prova tive a infelicidade de alcançar alguns corredores e corredoras que pareciam estar disputando o primeiro lugar na categoria geral, tamanha era dificuldade que tinham de dar passagem a alguém que nitidamente estava sendo atrasado pela sua lentidão. Teve, em especial, uma corredora que me segurou na trilha um bom tempo não permitindo que eu a ultrapassasse. Ela era enervantemente lenta, chegando a quase parar em obstáculos que qualquer outro superaria com facilidade. Tentei por várias vezes ultrapassa-la, mas ela fazia questão de não me dar qualquer chance. Já cansado de tentar fazer uma ultrapassagem com relativa segurança, resolvi me aventurar numa ultrapassagem de alto risco. Resultado: tropecei e fui de cara num galho cheio de espinhos. Na hora a única reação instintiva que tive foi colocar a mão para proteger o rosto e acabei com mais de 50 espinhos fincados nela (pelo menos livrei minha cara). Tentei tirar o que deu, mas uma grande parte penetrou profundamente na pele de forma que só depois da corrida, no posto médico, é que eles foram arrancados.
Tudo isto poderia ser evitado se aquela competidora tivesse simplesmente saído um pouquinho de lado. Ela não se atrasaria nem um segundo com esta gentileza, e evitaria um acidente. Por outro lado, encontrei na trilha vários verdadeiros corredores de montanha que naturalmente ofereciam passagem ao sentir que alguém se aproximava. Montanha não é lugar para pessoas que só pensam em si e não estão nem aí para o outro que partilha da mesma trilha. Ainda bem que tais exemplos negativos limitam-se a pessoas que caíram de pára-quedas naquela prova e não sabem nada dos princípios que movem um verdadeiro corredor de montanha.
Tirando estes contratempos, a 4ª Etapa do Circuito Brasileiro de Corridas de Montanha foi uma prova de excelente nível técnico no que diz respeito às dificuldades e obstáculos do percurso, porém maculada pela falta nível de alguns corredores em relação à conduta ética entre os corredores de montanha, que ao meu ver se resumem em três pontos básicos:
- Respeitar o próximo, que neste caso é o companheiro que compete contigo;
- Respeitar a natureza;
- Respeitar seus próprios limites.
Abraços a todos e até novembro em Paranapiacaba.
“A MONTANHA NÃO É ALGO A SER CONQUISTADO, MAS SIM ALGO PARA SER DESFRUTADO. AS VERDADEIRAS E MELHORES CONQUISTAS SÃO AQUELAS QUE OCORREM EM RELAÇÃO A NÓS MESMOS E NOS TORNAM MELHORES SERES HUMANOS, QUER ESTEJAMOS NO ARDOR DE UMA ESCALADA OU NA TRANQUILIDADE DE NOSSO LAR.”
Cleiton Heredia
Fotos:


10 de Setembro de 2007 @ 10:14
Camarada,
O que dizer sobre o seu relato? acho que a melhor definição é FANTÁSTICO. passado o evento conversei com o BERNARDO organizador do evento, ele reconheceu as falhas que aconteceram e se mostrou muito preocupado.
A ética da montanha é uma linha tenue e que algumas pessoas (geralmente urbanóides que acreditam ser superiores a toda forma de cultura que não seja a sua fórmula de vida ditada pelo que assiste na televisão). Bem, essas pessoas acham loucos os que correm em montanhas, escalam montanhas, expõem o corpo a adversidades incomuns à aquelas que são encontradas nos ambientes controlados, cidades.
O público das corridas de montanha talvez por já estar a mais tempo participando das corridas ou até mesmo por já terem essa semente dentro de si tem esse lado humano mais aguçado, o que eu percebo nas pessoas participam das provas é que existe uma pessoa antes da corrida de montanha e outra depois, o contato e o contágio dos montanheiros mostram as pessoas o tanto que elas podem melhorar com elas mesmas. Na verdade acho que existe muito carência afetiva nas pessoas e quando ele é tratado de forma humana acaba se identificando com os outros sei lá… teoria maluca.
Desculpe não ter respondido antes, mas estamos com o mundial essa semana e vamos ter pela primeira vez na história a participação de uma equipe Brasileira.
Fico olhando a listagem de inscritos e vejo as delegações completas de países ricos. puxa vida podíamos ter uma equipe completa e praticamente temos que mendigar por uma passagem de avião, isso é um absurdo.
bem, vou ficando por aqui…
grande abraços