Corridas de Montanha - Extrema - 12/05/2007

Eram 18 horas quando largamos. Tinha até a meia noite para correr até o outro lado daquela serra e voltar, senão não ganharia medalhinha nenhuma e aí… bem… aí, simplesmente seria o caos, seria o fim do mundo.

Como teria que correr mais de 22 Km, saí na miuda. Ainda me lembrava do corpo todo moído após a etapa de Paranapiacaba. Calculei que se conseguisse ir bem, até a metade do percurso, ou talvez até o Km 13 ou 14, sem perder o ânimo, continuaria o resto andando e isso seria suficiente para estar de volta antes do tempo limite imposto pelo regulamento.

Chegando no início da serra, vi que em alguns trechos a inclinação era muito forte. Nesses paredões, subi andando - haha, como quase todo mundo dessa parte do pelotão. Quando saimos da estrada e entramos em um single, alguns trechos eram abertos e outros bem fechados a ponto de não conseguir passar ninguém sem pedir para abrir. Havia muitas rochas e degraus de quase meio metro de desnivel.

Nessa altura alcancei um grupo, muito alegre, onde tinha uma pessoa sem lanterna (Mozart Rodrigues, que acabou chegando em segundo, na categoria 55-59). Mesmo assim, foi um custo passar os caras nessa escalada interminável. Eles eram muito rápidos no meio daquele mato fechado, dificil de se ver onde se estava pisando. Se eu ganhasse um real para cada tropeção, voltaria para casa de taxi de luxo, hehe.

O alto da serra foi um show à parte. O céu estava estrelado e a visão das luzes da cidade lá em baixo era espetacular. Saber que tinha chegado, no pique, até àquela altura e sentir o clima de todo o lance, foi de arrepiar. Lavou toda canseira.

Mas havia ainda muito chão pela frente e a descida requeria bastante atenção e cuidado. Meu único receio era torcer a canela, rolar pra dentro de algum buraco e perder tudo o que tinha conseguido até ali. Como estava me sentindo bem, desencanei e toquei em frente. No meio da descida, as pernas começaram a doer um pouco, principalmente perto dos joelhos. Maneirei um pouco, mas não esquentei muito a cabeça, pois desde o começo, sabia que não seria moleza, não.

Foi um alivio chegar lá em baixo do outro lado da serra, virar à esquerda sentido norte e pegar a estradinha mais ou menos plana. Nessa estradinha, foi onde eu curti mais a experiência de correr sozinho à noite, no meio do mato, ningém na minha frente e ninguém atraz, sem cruzar viva alma, apenas alguns alegres vagalumes esparsos, aqui e ali. Fantástico, uma experiencia singular, pois o campo de visão, se resumia apenas a uma pequena bolha de poucos metros que a lanterna conseguia iluminar e onde os únicos sons, fora o cri-cri dos matos, eram meus passos no chão de terra: plásh-plásh-plásh… Em alguns baixios onde o ar era mais frio, o ar quente que soprava da respiração, avivado pela lanterna de cabeça, explodia numa nuvem brilhante de vapor, que ofuscava parcialmente a minha visão.

Nesse trecho, olhei para cima e segui curtindo o céu que estava carregado de estrelas, exceto à minha esquerda onde se desenhava nitidamente, em negro, o paredão imponente e ameaçador da Serra dos Forjas. Arrepiei só de lembrar que teria que subir esse paredão tudo de novo, já não sei com quantos Km latejando nas pernas, nos pulmões e no lombo. Mas, catzo, tinha que fazer uma coisa de cada vez e resolvi que só iria me preocupar com a subida da serra, na hora que chegasse lá. Por isso, continuei na minha bolha de luz, plásh-plásh-plásh-plásh…, num sobe e desce, cheio de curvinhas.

De repente, cheguei numa bifurcação onde um rapaz do staf, de pé naquele ar gelado, sinalizou para que eu seguisse à esquerda, passando por uma porteira. Mais à frente, em uma subidinha começei a alcançar alguns corredores, mas notei que na verdade eles tinham errado o caminho e estavam voltando, entrando no mato imediatamente à minha esquerda, um atrás do outro como um trenzinho. Tinham errado, porque um que ia mais à frente gritava: “POR AQUI!!! É AQUI!!! TEM FITA AQUI!!!”. Alcançei os caras e juntos, começamos a cruzar o pasto seguindo a sinalização de fitas, que em alguns trechos sumia completamente para depois reaparecer lá na frente, aos pedaços, pendurado em algum galho de árvore. Na correria tropecei numa coisa que rasgou minha perna e seguiu arrastando, enroscada no cadarço do tênis. Pensei que fosse arame farpado, mas era apenas um galho cheio de espinhos. Tentei puxar, mas tinha espinhos demais e não havia jeito de pegar sem furar os dedos. Usei o boné como luva e arranquei o filho de uma égua. Olhei em volta mas nessa altura, os caras que estavam junto comigo, tinham se distanciado e agora eram apenas pequenos pontos de luz zigzagueando pelo costado do morro que era alto, muito alto. Joguei fora o galho espinhento, ajeitei o boné com as luzes e saí buscando o melhor caminho, mas procurando não pensar muito a respeito da altura do morro.

Não foi mole, não. O mato batia na cintura e não se podia ver exatamente onde se estava pisando. Por sorte, o pessoal que já tinha passado, tinha deixado o mato amassado em alguns pontos, que facilitava saber por onde ir, mas o caminho continuou muito difícil. Uma hora o pé afundava no mato e ficava firme, mas tinha hora que o pé escorregava para trás e como se estava com o corpo muito inclinado para frente, acabava caindo de cara no mato. Aarrg… a temperatura subiu e o suor começou a coçar, nos milhares de arranhões pelos braços e pernas. A subida acentuou mais ainda e fui obrigado a me agarrar nos matos para poder avançar, centímetro por centímetro. Puf, por duas vezes parei para tomar fôlego e quase caí para tras, batendo os braços igual a uma galinha tentando voar. Escalei a parte final quase de gatinhas, em zigzag, passando algumas pessoas, alcancei o topo, fiquei de pé, tomei ar e segui em frente sem ao menos olhar para tras.

De novo, no alto da Serra dos Forjas, a vista era espetacular. O vento frio e refrescante incentivou o pique em direção à descida que começava num trilho cheio de buracos e pedras. Segui nesse caminho até que finalmente cheguei na estradinha que serpenteava serra abaixo.

Ali, com o chão mais liso e firme, sem muitas surpresas, foi possível correr mais rápido um pouco, plá-plá-plá-plá… Agora à minha esquerda, lá em baixo, a cidade de Extrema brilhava e me confortava como se eu já estivesse chegando. Animado, lembrei que havia uma mesa de frutas frescas os esperando na chegada, mas, aos poucos a descida acentuou e começou a cobrar o seu preço. Frear na descida é muito desgastante, sem contar o cuidado para não escorregar e cair de bunda no chão. Segui na rotina…, Plá-plá-plá-plá…

Quando cheguei no PC 5, que tinha água e alimentos, passei reto sem parar. Tinha um Cabeano lá, que mesmo no escuro, reconheceu a minha camisa do CAB, mas não deu tempo de descobrir quem era. Adiante, um maluco sem lanterna me alcançou e corremos um bom tempo juntos até aparecer um outro, mais rápido, com lanterna e lá foram os dois galopando morro abaixo “paplá-paplá-paplá…” Entrei no asfalto e na parte iluminada passei por uma garota do Staf que me deu um banho de ânimo “VAMOS LÁ, FALTA POUCO” e apesar das dores nas pernas continuei descendo até começar a entrar na cidade. Passei pelo fotógrafo na subidinha, virei a esquerda na entrada da Rua Capitão Germano e iniciei o último trecho em subida, de uns 800 metros, que leva até a Praça da Igreja Matriz.

Quase perdi a concentração quando a subida apertou e senti o peso dos quilometros. Caminhei, corri, caminhei e voltei a correr, enquanto pensava na loucura que tinha feito: Vinte e dois mil e quinhentos metros de chão, à noite, transpondo a serra cheia de escaladas com pedras pontiagudas, galhos e espinhos cortantes, declives cheio de buracos, desnível de estalar os tímpanos, uma desgraceira sem fim, até que as luzes e os sons da linha de chegada surgiram à minha frente e aí sim, eu corri.

Corri como se tivesse começado a corrida naquele instante, ali atrás, na virada da esquina.

Corri, até pisar no tapete fofo da cronometragem, completando a mais dificil, infernal e espetacular corrida que já tive o prazer de participar.

Parabens a todos os corredores que completaram ou não, pessoal de apoio, organização e à população da cidade de Extrema que nos acolheu com muito carinho e atenção.

Essa foi de lascar.

joao faria

3 respostas para “ Corridas de Montanha - Extrema - 12/05/2007 ”

  1. Elisa :c) disse:

    Olá João!
    Parabéns pela conquista e pelo belo relato (muito bem humorado, aliás!)! Tenho certeza de que os seus colegas de perrengue reviveram (e reviverão) toda aquela emoção ao ler o seu texto. E os futuros corredores de montanha se sentirão tentados a confirmar se é tudo isso mesmo! E, apesar d’eu ser apenas do staff, posso garantir que é sim!!
    Abraços,
    Elisa

  2. elizabet disse:

    Pois é,João…vc foi mais um felizardo…aquela corrida é a coisa(pq ñ encontrei outro termo p/defini-la)mais emocionante no mundo das montanhas….eu fui uma das mulheres presentes.Fui a mulher que mais sofreu…com cãimbras em todos os lugares imagináveis…impossiveis…fiquei la naquele morro caida por minutos que se transformaram em horas p/mim,mas dai encontrei,aliás,o Haroldo Birsztein encontrou-me a morrer…e me socorreu….perdeu longos minutos ao meu lado.Eu tive o prazer de constatar que realmente o mundo das montanhas é mto diferente do mundo do asfalto….mtos atletas pararam em meu socorro.Mas estarei la no próximo ano…ñ posso perder p/aquela montanha.obs:em compensação em s.sebastião fui a forra!clap clap clap….valeu!parabéns!Elizabet abou nidal.

  3. Nilton Ferreira disse:

    Bom Dia a todos!
    Estou fora de corrida de montanha +ou- 2 anos, sinto muita falta desse tipo de corrida (inveja de vcs…..) principalmente quando leio estes relatos, Galera, gostaria de parabenizamos pelo feito e deixar um forte abraços a todos os participantes e a todos os organizadores.

    Nilton Ferreira Sobrinho

    Nilton Ferreira Sobrinho

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