2ª Etapa do Circuito Brasileiro de Corridas de Montanha 2007

Extrema – Minas Gerais – 12/05/2007

DA QUEBRADEIRA AO MILAGRE

Quarta corrida noturna de montanha em Extrema e a terceira que participava. Podemos dizer que já posso me considerar um veterano nesta prova, porém, de todas as outras vezes esta era a que eu mais estava ansioso. Conforme o dia se aproximava eu só conseguia pensar em Extrema. Cheguei até a criar uma Comunidade no Orkut sobre esta memorável corrida (CORRIDA DE MONTANHA EM EXTREMA), onde conversava com alguns corredores através dos fóruns que iam sendo criados.

Treinava com a cabeça lá nas trilhas de Extrema e conforme conseguia baixar meu tempo nas corridas de rua de 10 km e meia maratona, minha expectativa aumentava em relação a esta prova. Tudo que eu queria era baixar meu último tempo que foi de 3h46m no ano passado.

Chegou o dia tão esperado e lá fomos todos nós para mais um desafio; eu, meu filho Filipe de 15 anos, e o Odilon Pantera Negra (fera das montanhas: 3º lugar geral no ranking do circuito do ano passado e 3º lugar geral em Morretes este ano). A viagem foi rápida e divertidíssima com todas aquelas cômicas histórias contadas pelo Odilon.

Chegamos lá pelas 16:30h, pegamos nosso kit e fomos para o congresso técnico. Quero destacar aqui dois pontos que me chamaram a atenção e me encantaram:

1º) A camiseta: Simplesmente a mais linda de todas! A camiseta do ano passado foi muito bonita e eu achava que dificilmente seria superada, porém, mais uma vez o pessoal das Corridas de Montanha nos surpreendeu e conseguiu criar um design ainda mais impactante. Esse pessoal sabe realmente como encantar o cliente, pois conseguem captar o que vai na alma de um corredor de montanha: “Orgulho por ser um Corredor de Montanhas”. Esta camiseta é daquelas que gostamos de desfilar de peito erguido em ocasiões especiais, pois é uma peça digna de ser guardada em lugar de destaque na nossa coleção. Parabéns!

2º) O congresso técnico: Foi muito bom recebermos todas aquelas informações da prova na forma de Congresso Técnico. Isto fez com que todos entendessem a seriedade com que são tratadas as Corridas de Montanha e trouxe para o evento um charme todo especial. Mais uma vez parabéns!

Terminado o congresso, fomos nos trocar e nos preparar para a largada, que foi dada as 18 horas. Este ano a novidade ficou no desfile inicial de 1 km que fizemos pela cidade com direito até a carro madrinha. A idéia foi muito boa, pois além de divulgar melhor o evento pela cidade, dá uma oportunidade para os familiares e amigos que acompanham os corredores os verem passar mais uma vez pela largada.

Terminada nossa exibição com toda pompa e circunstância, lá fomos nós mais uma vez nos transformarmos em heróis solitários de nós mesmos em meio à escuridão sem fim. Só que desta vez eu não podia imaginar que estava indo em direção a uma das minhas mais dramáticas experiências que nem em meus piores pesadelos havia enfrentado.

Os primeiros 12 kms de prova transcorreram sem qualquer novidade. Eu já conhecia bem o caminho e procurei avançar por ele o mais rápido que minhas forças permitiam. Estava tão determinado a alcançar meu objetivo que desprezei alguns postos de água e no posto de alimentação nem sequer virei o rosto para ver o que tinha lá. Estava levando comigo uma garrafa de 500 ml de água e 3 saches de carboidrato em gel, e acreditava que aquilo era tudo de que eu precisaria durante a prova. Este foi meu terceiro e mais grave erro.

O primeiro erro foi me alimentar e me hidratar precariamente durante o dia da prova, e o segundo foi não ter treinado nenhum longão com mais de 2 horas. Meus treinos foram todos abaixo de 25 kms em asfalto, mas num ritmo bem forte de forma que não duravam mais que duas horas. Erro infantil, mas fatal! Eu superestimei minha preparação achando que rodar no asfalto me daria plenas condições de fazer a mesma quilometragem em trilhas pesadíssimas, e desta forma subestimei a montanha.

Entrando no km 13 com mais de 1 hora e meia de prova já sentia fortes dores na perna, conseqüência não só do enorme esforço despendido até ali, mas também de um tombo que levei na subida da serra onde machuquei a coxa esquerda e o joelho direito. Mas ainda estava confiante só pensando no pasto da morte e na subida do desespero, pois sabia que seria ali que o bicho iria pegar, mas sinceramente nunca da maneira como pegou.

Estava tão concentrado no foco de luz a minha frente que quando me dei por mim já estava no meio do pasto. Tentei olhar ao redor para ver se me lembrava de algo familiar, mas nada. Parecia que eu nunca havia estado naquele lugar antes. A minha frente e nas minhas costas podia avistar as lanternas de outros corredores seguindo pelo mesmo caminho.

- “Bem, pelo menos não estou no caminho errado”, pensei comigo mesmo. Nem deu tempo para completar o pensamento e comecei ouvir uns gritos um pouco mais abaixo:
- “Não é por aí!”
- “Este é o caminho errado, voltem!”
Olhei mais acima e vi outros focos de luz bem distantes, e raciocinei que aquele era um grupo que havia se perdido.

Continuei prosseguindo e tentando entender o que estava acontecendo, quando vi várias luzes de lanternas descendo em minha direção. Exatamente o que mais temíamos havia acontecido; entramos no caminho errado. Naquele trecho as fitas que indicavam uma curva no pasto à direita foram arrancadas e passamos batido. Voltamos e encontramos novamente as fitas que indicavam o caminho certo, porém confesso que psicologicamente aquilo me abalou bastante.

A mais tenebrosa subida de toda prova não demorou a chegar, e ao começar subi-la foi que comecei a perceber o quanto estava cansado, com frio e com minhas forças minguando rapidamente. Tentei parar alguns segundos para recuperar as forças com alguns goles de gel e água, quando percebi que eles já haviam acabado. Olhei para cima e podia ver numa distância que para mim parecia absurda, as luzinhas das lanternas que pareciam se confundir com o lindo céu estrelado.

Tentei insistir e continuar avançando, apenas para perceber após um esforço sobre-humano que tinha progredido não mais que alguns poucos metros. Era frustrante! Era desesperador! Era assustador!

Foi neste momento mais crítico da prova que deitei na grama gelada e molhada pelo orvalho e fiz algo que nunca imaginava que faria numa corrida: “entreguei os pontos”. Sentia-me tão extenuado que não pude evitar que pensamentos terrivelmente negativistas se apossassem de minha mente:
- “Acabou! Não vou conseguir! Chega!”

Acabado física e psicologicamente nada me restava a não ser ficar ali e esperar ser encontrado por alguém do resgate. Mas como? Ali naquela pirambeira será que aparecia alguém? Quando tempo teria que ficar ali fraco, molhado e congelando mais e mais a cada segundo? Comecei a pensar na minha família, minha esposa, meus filhos e temi não sair dali com vida. Para alguns pode parecer ridículo este tipo de pensamento numa corrida onde muitos estavam rindo e se divertindo, mas é interessante como nossa mente pode ser afetada quando você se encontra no limite de suas forças e tendo ainda pela frente um obstáculo considerado intransponível.

Ao meu lado vi passar uma enorme aranha, mas não senti qualquer medo; pelo contrário, olhei para ela e a considerei como uma companheira naquele fim de mundo. Até que era uma aranhazinha bem simpática, mas ela nem deu bola para mim e logo desapareceu no meio do mato me deixando novamente sozinho.

O tempo ia passando e o frio aumentando. Conforme a pulsação ia caindo, comecei a temer por uma hipotermia. E foi neste momento que comecei a olhar para aquele lindo céu estrelado e orar. Meu pedido foi simples e objetivo: “Senhor preciso de um milagre! Dê-me as forças que preciso para sair daqui e chegar ao mais próximo local seguro”.

Mal havia acabado de fazer meu pedido, o milagre aconteceu! Um corredor me viu ali jogado no mato e perguntou-me se gostaria de uma barrinha energética. Eu estava faminto e prontamente aceitei. Agradeci e devorei aquela barrinha. Com a glicose proveniente daquele alimento circulando pelo meu sangue, minha mente começou a se desanuviar e a esperança brotou. Levantei-me e resolvi continuar. Ainda avançava com EXTREMA dificuldade, mas só que desta vez resolvi adotar uma tática diferente. Comecei a avançar subindo dez pequenos passos de cada vez. Meu objetivo naquele momento havia mudado. Não era mais subir aquela montanha, muito menos terminar a prova, mas apenas subir dez pequenos passos. Após conseguir da-los, não pensava na montanha a minha frente, mas apenas em dar somente mais dez pequenos passos. Quando percebi que não conseguia mais dar dez passos consecutivos, mudei para cinco pequenos passos, e assim fui até o topo, superando uma pequena etapa de cada vez.

Permitam-me abrir aqui um pequeno parêntese para lhes revelar o que estava pensando enquanto subia. Eu comecei a meditar sobre a maneira como os milagres divinos se processam em nossa vida. Eu havia pedido a Deus por um milagre que se resumia em ter forças para avançar. Muitos acham que milagre para ser considerado um milagre deve ser algo tremendamente sobrenatural, do tipo de um raio no estilo “SHAZAM” caindo sobre minha cabeça e enchendo-me de uma vitalidade mágica, fazendo-me gritar como um HE-MAN: “Eu tenho a força!”. Se eu estivesse esperando por um milagre deste tipo é bem provável que estaria lá naquela montanha até agora. Nada de raio ou força mágica, mas simplesmente um gesto de solidariedade de alguém que naquele momento movido de compaixão, repartiu o pouco que tinha (talvez tudo) e fez o milagre tão esperado acontecer. É desta maneira que Deus quer operar a cada dia vários milagres em nossas vidas, porém às vezes estamos tão limitados a só querer enxergar raios e poderes sobrenaturais que deixamos de perceber os verdadeiros milagres acontecendo em nossa volta. Assim como aquele corredor amigo foi o milagre que Deus enviou em resposta a minha súplica, assim também podemos nos transformar em milagres enviados por Deus em respostas as súplicas de um mundo carente por amor, atenção, sorrisos, carinho, gestos de cortesia e outras coisas que para nós pode não custar tanto, mas que para outros pode ser a diferença entre continuar avançando nesta vida ou simplesmente parar e desistir de tudo. Outra coisa que pensei ali enquanto subia foi que alguns milagres quando acontecem não nos exime do esforço pessoal, pois Deus não fará por nós aquilo já nos habilitou a fazermos por nós mesmos. Fecho aqui o parêntese.

Uma vez novamente no topo, restava descer pela mesma trilha que subimos a princípio. Já havia transcorrido quase 3 horas e meia de prova e ainda faltavam 6 kms para o final. Minhas pretensões de melhorar meu tempo foram substituídas pelo único desejo de somente conseguir terminar a prova. Desci lentamente a trilha com fortes dores nas pernas e sentindo minhas reservas energéticas mais uma vez se extinguirem (a energia daquela barrinha foi o suficiente para subir, mas não seria o suficiente para descer e terminar).

No meio da descida, encontrei um rapaz de roupa camuflada juntamente com uma garota que faziam parte do staff da prova. Não estava agüentando prosseguir e resolvi sentar ali mesmo. Ele ofereceu-me algumas barrinhas energéticas, bananinha, sache de leite moça e água, de forma que, após este banquete, senti novamente minhas forças voltarem e a disposição de terminar aquilo que comecei.

O fim daquela descida interminável foi um alívio para as pernas que já não estavam agüentando mais. Continuei pelo asfalto nos quilômetros finais intercalando trote com caminhada até chegar à derradeira subida que levava até a linha de chegada. Nem podia acreditar que há uma hora atrás estava decidido em desistir e agora estava a pouco menos de 1 km da chegada. Tal pensamento me animou a subir trotando e nos últimos 100 metros resolvi reunir todas as últimas forças que ainda restavam e dar um tiro em direção à linha de chegada.

A emoção de ter finalmente concluído aquele desafio unido ao desgaste inconseqüente de terminar a prova forçando além do limite, fez com que eu desabasse logo após cruzar a linha de chegada. Fui atendido atenciosamente pela equipe da ambulância de plantão e alguns minutos depois já estava em pé feliz da vida vendo orgulhosamente meu filho Filipe subir ao podium e ganhar seu primeiro troféu.

Foi realmente uma corrida inesquecível onde aprendi preciosas lições que levarei comigo por toda minha vida.

Bem, a próxima etapa será em São Sebastião no Campeonato Brasileiro de Corridas de Montanha e tudo que sei é que será uma nova corrida onde viveremos mais algumas emoções inéditas. É isto que me cativa nas corridas de montanha: Não importa quantas vezes já tenhamos participado de uma determinada prova, pois a seguinte nunca será igual a anterior.

É isto aí montanheiros, um forte abraço e bons treinos.

Cleiton Heredia
Mountain Runner
No Pain No Gain

Uma resposta para “ 2ª Etapa do Circuito Brasileiro de Corridas de Montanha 2007 ”

  1. Anita de Oliveira Miyashiro disse:

    Belíssimo relato, Cleiton, como já era de se esperar, e o mais legal é perceber não só a maturidade com que você trata os fatos, mas que, além de aprender com seus possíveis erros, você consegue ter uma paciência oriental para superar seus limites, adequando os objetivos à suas possibilidades, transformando tudo, no final, numa lição de vida… Que nos sirva como exemplo.

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