1ª Etapa do Circuito Brasileiro de Corridas de Montanha 2007

Morretes – Paraná – 25/03/2007

Para aqueles que pensam que corredores de montanha só vivem aventuras quando estão correndo por entre trilhas escabrosas nas montanhas, quero começar o relato desta aventura um dia antes, quando, às 10:30 da manhã, entramos num ônibus fretado pela equipe da Perphil para irmos em direção à cidade de Morretes no estado do Paraná.

Quando se fala de uma viagem de ônibus com duração de mais de 7 horas num dia quente e abafado por uma estrada sofrível como é a BR116, muito já imaginam que não pode haver nada mais entediante e monótono. Porém, quando se coloca dentro deste ônibus um bando de malucos alucinados por correr e indo em direção ao seu habitat natural entre as montanhas, tudo fica muito diferente.

Até que foi uma viagem bem divertida, repleta de cantorias, besteiras hilariantes, com muitas histórias e piadinhas de corredor, onde nem mesmo os momentos angustiantes e tensos quando passamos ao passar ao lado de um caminhão em chamas, conseguiram quebrar o clima de total descontração.

Umas duas horas antes do sol se pôr, estávamos adentrando na aprazível cidadezinha de Morretes, e nos acomodando num hotel de nome tão estranho quanto o da cidade: “Pousada Nhundiaquara”. A placa do lado de fora dizia: “Este é o prédio mais antigo da cidade”. Pois é, passaríamos todos “Uma noite no museu”. As instalações eram simples, mas adequadas, porém a localização era privilegiada, especialmente pelo belo rio que passava ao lado.

Caindo a noite, um pouco antes de jantarmos, tivermos uma reunião com o pessoal da organização, onde recebemos orientações sobre a prova (briefing), inclusive com o fatídico detalhe que as trilhas poderiam ocultar cobras venenosas (alguns belos exemplares de cobras corais, jararacas e cascavéis). Daí para frente o assunto “cobras” passou ser a pauta mais freqüente em todas as nossas conversas, e entre uma piadinha aqui e outra lá, podíamos sentir uma atmosfera de real preocupação pairando no ar. E foi com todas estas informações em nossas cabeças que fomos dormir e sonhar com gordas e compridas cobras de dentes bem afiados cheios de letal veneno em suas mandíbulas prontas para dar o bote em nossas atrativas e desprotegidas canelas (preferiria ter sonhado com o Freddy Krooger).

O dia amanheceu e logo após um simpático desjejum, lá fomos todos nós para o nosso principal destino: o Recanto Cascatinha às margens do Rio Marumbi e aos pés do morro de mesmo nome, onde seria dada a largada da 1ª Etapa do Circuito Brasileiro de Corridas de Montanha. Em nossas cabeças de destemidos e intrépidos corredores de montanha tínhamos todos um só pensamento: “COBRAS!!!!”. Nem mesmo o paradisíaco cenário do Recanto com tudo que a natureza tem de mais belo, conseguiu evitar com que todos andássemos pelos arredores sempre olhando para o chão desconfiados.

A largada foi dada com trinta minutos de atraso, e como já era de se esperar a chiadeira foi geral. Se ainda o atraso tivesse acontecido para que o pessoal da organização pudesse ter tempo para limpar as trilhas das cobras, tudo bem! Mas que nada! Pelo que fiquei sabendo, o atraso aconteceu simplesmente porque alguns corredores ainda não tinham chegado (lamentável).

Bem, aqui quero abrir um parêntese para fazer um comentário pessoal:

Quando fiquei sabendo do intercâmbio que o Circuito Brasileiro estaria fazendo com o Circuito Paranaense, de forma que a 1ª etapa nossa coincidisse com a 2ª deles, achei uma brilhante idéia. Eu acreditava que esta junção poderia fortalecer ainda mais as Corridas de Montanha no Brasil, mas infelizmente não foi o que aconteceu. Não quero aqui depreciar o Circuito Paranaense, pelo contrário, quero até elogiar a iniciativa de seus organizadores por estarem batalhando em seu estado pelo estabelecimento das Corridas de Montanha. O grande problema é que o Circuito Brasileiro já adquiriu um padrão de organização em provas que o Circuito Paranaense ainda esta no caminho por adquirir, e quando unimos os participantes de cá com os de lá, este desnível organizacional acaba chateando (e com razão) alguns.

Deixe-me explicar um pouco melhor através de uma simples ilustração: Imaginem vocês que o Fábio Galvão costume periodicamente a promover festas em sua mansão com piscina. Suas festas são sempre muito bem planejadas e organizadas, contando com muitos garçons, mestres de cerimônias, faxineiros, copeiros, e demais ajudantes contratados de todos os tipos. Ele sempre convida a muitas pessoas e, como suas festas são muito boas, ninguém gosta de faltar. Um belo dia o Fábio encontra com o Cleiton e descobre que ele também gosta de festas. Como existe uma afinidade de interesses festivos, uma amizade nasce ali, de forma que o Fábio acaba combinando com o Cleiton deles fazerem a primeira festa do próximo ano juntos. A data é marcada, os convites são enviados, e o local é definido: a festa será na casa do Cleiton. Acontece que o Cleiton, apesar de gostar muito de festas, não está acostumado com grande número de convidados, e por isto não tem uma estrutura profissional, mas conta apenas com a sua família que com a maior boa vontade e sacrifício procura servir da melhor forma possível os convidados. Bem, como vocês acham que irão se sentir os convidados do Fábio quando forem recepcionados na casa do Cleiton? Por mais boa vontade que a família do Cleiton tenha em dar a todos convidados uma boa festa, os convidados acostumados às festas promovidas pelo Fábio não irão se sentir bem tratados, pois estão acostumados com um outro padrão.

Vejam bem, o que eu estou tentando dizer é que, como a 2ª etapa do Circuito Paranaense de Corridas de Montanha o evento pode até ter sido satisfatório, mas como a 1ª etapa do Circuito Brasileiro de Corridas de Montanha o evento ficou muito abaixo do padrão das corridas anteriores. Espero que os nossos amigos do Paraná não fiquem chateados comigo, pois não estou querendo depreciá-los dizendo que as Corridas do Circuito Brasileiro são melhores que as do Circuito Paranaense. A questão aqui não é competição entre os circuitos para ver quem é melhor, mas sim esforço conjunto onde os que estão em melhores condições ajudam aqueles que não estão, para que com isso a corrida de montanha no Brasil ganhe sempre. Vocês (do Paraná) estão no caminho certo, porém no início dele, e terão ainda uma boa distância a percorrer. Mas não desanimem, pois quem participou das primeiras provas do Circuito Brasileiro, sabe que não se pode comparar a aquilo que é hoje. Quem dera que no Brasil tivéssemos mais pessoas como vocês, interessadas e empenhadas a fazer das corridas de montanha uma realidade em seu estado. É para isto que nós corredores de montanha estamos torcendo, e por este motivo que valorizamos tanto todo o esforço do pessoal do Paraná, desejando que eles continuem se aprimorando e crescendo a cada temporada mais e mais.

E já que estamos falando em aprimoramento do padrão de qualidade nas corridas de montanha, os pontos que nós corredores valorizamos são:

- Pontualidade nos eventos;
- Parcerias interessantes que beneficiem o corredor (brindes e sorteios);
- Mídias de comunicação para cobrir o evento (o atleta patrocinado vive disto);
- Infra-estrutura (banheiros com papel, vestiário, guarda-volumes, trilhas sinalizadas);
- Pessoal de apoio (segurança, primeiros-socorros, resgate, fiscais, orientadores);
- Cronometragem por chip;
- Pontos de hidratação abastecidos adequadamente e distribuídos de forma inteligente;
- Camiseta e medalha alusivas ao evento;
- Cerimonial de Premiação com toda dignidade que os corredores merecem;
- Divulgação ágil e precisa dos resultados e das fotos;
- E por último, porém como o básico e mais importante item: uma trilha bem louca, cheia de obstáculos, com rios para atravessar, paredões para escalar, descidões para voar, e com desafios mil para encarar (as cobras e outros bichinhos peçonhentos são dispensáveis).

Vamos aqui fechar o parêntese e voltar para a corrida em Morretes.

Gostei muito da trilha, mas considero seu nível de dificuldade de médio. Não foi tão fácil como Pardinho, mas também não foi tão difícil como São Sebastião ou Paranapiacaba. Não vou mencionar Extrema porque aí é covardia. A trilha noturna em Extrema é a elite (a nº1) de todas as corridas de montanha das quais já participei. Só quem já participou pode entender o que estou falando.

Corri o tempo todo preocupado com as cobras, mas minha preocupação era mais com meu filho que vinha atrás, e que fazia sua primeira corrida de montanha, do que comigo mesmo. Ao cruzar a linha de chegada colocaram uma medalha no meu pescoço, mas nem parei para apreciá-la. Imediatamente fiz meia volta e voltei para ver se meu filho estava bem. Lá pelo km.9 pude então respirar mais aliviado. Lá vinha ele todo feliz da vida avançando forte pela trilha para orgulho do pai coruja. Seguimos juntos para a chegada, e num sprint final o ingrato filho acabou deixando para traz seu velho e cansado pai (o ingrato é brincadeirinha, mas o velho e cansado é verdade).

Só então eu fui parar para apreciar minha merecida medalha. Achei que estava com problemas de visão em razão do esforço, pois minha mente recusava-se a entender aquilo que meus olhos liam: “1ª Etapa Colombo – 10/02/2007 – 10 km”!

Pirei!
- Onde estou? Que dia é hoje? Quem sou eu?

Ainda bem que tinha aquele riozinho com água geladinha para todos darmos uma boa relaxada e esfriarmos a cabeça.

Eu já falei em relato anterior que depois de correr uma boa trilha, se, ao invés de uma medalha, me derem uma pedra como prêmio de participação, eu já ficaria feliz. Mas calma lá! Não escrevam nesta pedra uma coisa que não é, pois aí todo o simbolismo daquele objeto acaba se transformando em nada.

Bem, mas de qualquer forma, o mais importante é que o Circuito Brasileiro de Corridas de Montanha 2007 já começou, e o negócio é seguir adiante aprendendo com os erros cometidos e esforçando-se para não repeti-los, porque EXTREMA VEM AÍ!!!!

Um forte abraço,

Cleiton Heredia
Mountain Runner
No Pain No Gain

2 respostas para “ 1ª Etapa do Circuito Brasileiro de Corridas de Montanha 2007 ”

  1. Fábio Galvão Borges disse:

    Cleiton,

    Li o seu comentário e achei perfeito e preciso, me dê um tempo para responder a altura.

    Abraços

    Fábio

  2. Lucina Ratinho disse:

    Olá, Cleiton !
    Achei muito hilário e verdadeiro seu relato rsrsrs.
    Você já pode começar a escrever um livro, relatando nossas aventuras nas corridas de montanhas.
    Parabéns !!! Ficou muito legal seus comentarios,acho até que poderia falar mais, eu mesma fiz nossos colegas falarem sobre as cobras que viram no caminho, dentro do onibus, lembra-se?
    Parabéns pelo seu filho além de Lindo ele já demonstrou que será um grande corredor de corridas de aventuras.
    Vou rir por muito tempo, lembrando dos apuros que os nossos colegas passaram de medo das cobras…
    Até a proxima,
    Bjs
    Lucina

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